Do lado de cá…

Ela se sentava sempre no mesmo local na sala de aulas. Gostava do cantinho, longe da potência do ar condicinado gélido.

Ele estava sempre do lado oposto. Compenetrado, participava atentamente da aula. Ela se agradava dos comentários pertinentes dele, do jeitão despojado. Às vezes parecia que ele tinha saído diretamente da década de 70 para a sala de aulas, com suas batas brancas largas e aquela cara de ‘paz e amor’.

Então, um dia, ele sentou ao lado dela.  E ela conversou com ele. E descobriu que ele beirava os quarenta anos. “Ótimo”, pensou, estamos na mesma faixa etária.  Não tinha filhos, nem namorada. E descobriu que o homem que fazia discursos inflamados em defesa das massas menos favorecidas, justificando seus comportamentos e tomando prá si as dores, o cara de fala sindicalista e reinvidicadora, morava numa mansão em um bairro nobre vizinho ao seu, tinha apenas um emprego que pagava pouco,  ao contrário dela, ele morava com os pais e não tinha a menor pretensão de sair de lá. Estava bem acomodado. Era zen demais: zen iniciativa, zen grandes pretensões… Era inteligente, até interessante. Mas suas palavras não passavam de discurso de quem cresceu muito bem colocado na sociedade e achava que chamando todo mundo de ‘companheiro’ estava ajudando o mundo a melhorar. Seu discurso em defesa da humanidade não atravessva as portas do seu consultório de doutor cuidador das mentes.

E ela continua solteira na Ilha…

P.S.: E ele llimpava o nariz, depois do espirro, nas mangas da bata. É, de perto, do lado de cá, ninguém é muito certo…